Teca e Renée Gumiel

“Vie et mort! Mort et vie!

C’est la même chose.”

Incrível.

No dia 10 de setembro de 2015, vamos comemorar mais um ano de exílio de Madame Renée Gumiel.

Exílio da morte.

E eu a sinto tão viva em mim todos os dias.

Saudades? Não sei. Parece algo diferente do que sinto por outros mortos queridos que ainda vivem na minha lembrança.

Renée está viva em mim.

Ouço sua voz. Não preciso fechar os olhos para ver seus gestos, nem preciso imaginar o que ela faria ou diria.

Sei. Simplesmente sei.

Ela está sempre presente em mim.

Não há um dia em que ela não vasculhe minhas ideias e nós não nos encontremos para discuti-las. Não há um dia em que não seja possível reconhecê-la em cada um dos estudos somáticos a que me dedico desde que essa mulher, de estatura mediana, que assumia sua total grandeza quando subia ao palco, me provocou pela primeira vez.

De onde vinham suas ideias?

Em que ela baseava seu trabalho?

Como assim, estudar pinturas e pintores para depois dançá-los?

Textos complexos lidos em sala… Todos os alunos sentados ao redor dela, e, bastava um sinal, cada um procurava por seu lugar no espaço vazio, pesquisando seu interior e criando, vomitando gestos e movimentos, sons, ruídos…

A cada encontro uma novidade.

Grandes nomes da literatura, da música clássica mais erudita ou mais popular, eletrônica ou contemporânea. Sons, de um estilo a outro. Trabalhando formas e conceitos, sempre de maneira singular, espontânea, porém com um refinamento próprio de sua origem.

Aristóteles, poemas, textos questionadores e filosóficos seus e de autores conhecidos. Em portunhol, espanhol, inglês e até mesmo francês. Íamos passeando pelo universo do que é feita a humanidade, do humano em nós e suas virtudes e defeitos. Pelos livros, fotos, textos por vezes escritos em papel de pão, de rascunho, sempre instigantes e provocadores.

A grande contribuição de Renée a mim, e creio que a todos que puderam fazer aulas com ela e até mesmo cruzar com ela nas salas de espetáculos de teatro (era figura constante nas plateias dos teatros e nos encontros e noitadas com intelectuais, atores, dançarinos, coreógrafos, músicos), foi sua inquietação.

Naquela calma aparente, com gestos aparentemente controlados, harmônicos e equilibrados, se podia sentir um fervilhar, um constante movimento interno em que borbulhavam ideias, questões, palavras, textos. E, além de tudo, longas conversas que poderiam varar madrugadas. Madame não queria perder tempo dormindo. Tinha “pressa”. Não desperdiçava nenhum segundo, fosse como fosse. Pessoas e artistas com quem não via possibilidade de trabalhar, ela dispensava sem rodeios. Sempre em foco: produzir arte de qualidade. Tudo tinha que ter qualidade. Nem as conversas podiam ser qualquer coisa.

Sempre conversas profundas, reflexões, e muita naturalidade na forma e no posicionamento sobre os mais variados assuntos.

Direta. Buscava sempre a clareza e a precisão.

Era coerente e alinhada em seus princípios, tanto como profissional quanto em sua vida pessoal. Pagava caro por isso. Nunca foi a mais popular ou a mais querida das criaturas, nem pelos próprios filhos. Era respeitada e, onde quer que fosse, era imediatamente reconhecida.

Era altiva. Muito altiva, mas também muito complacente com as pessoas que amava. Porém, para amá-las, tinha antes que respeitá-las. O amor vinha depois da admiração e do respeito. Era uma consequência.

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