Estava ansiosa.
Sempre curiosa sobre Tadashi.
Seria nosso quarto encontro.
Foram 3 oficinas: 2010, 2012 e, agora, 2015.
A cada dois anos Tadashi costuma vir ao Brasil para dar oficinas.
Meu corpo esperava por esta possibilidade de trabalhar o jeito Tadashi: Butoh-Mah, “In between“, “Underskin”…. o ENTRE.
Sentados em círculo, eu aguardava uma oportunidade de falar com ele para saber como tinham sido os três anos em que não nos encontramos.
Eu o vi dançar: sua homenagem a Pina Baush, no Sesc Ipiranga, e nesse meio-tempo e recentemente, vésperas da oficina, também no Sesc: “Fukushima Mon Amour”.
Mas então nosso contato foi apenas entre artista e espectador, um abraço e meu sentimento, transmitido em palavras rápidas, sobre o espetáculo e sobre o que despertou em mim.
Gosto mesmo é de deixar-me trabalhar pelo jeito Tadashi.
Um a um fomos nos apresentando, e na minha vez ele disse meu nome e olhou para mim, me reconheceu.
Quando eu contei que me chamam por Teca Marchetto, ele perguntou:
“Quantas vezes você já participou das minhas oficinas?”
“Três ou quatro”, respondi.
“Não fica entediada?”
“Não. O tempo está passando, nós estamos envelhecendo, mas eu gosto de visitar o seu trabalho com o meu corpo.”
Tadashi começa sempre os trabalhos com uma apresentação pessoal, uma história também pessoal, vivida no início de sua carreira.
Conta ângulos diferentes de uma mesma época.
Mudou-se jovem para a Alemanha, seu sonho desde muito cedo.
Estudou teatro (Tradicional/Ocidental).
Queria ser artista.
Achava a instituição do teatro na Alemanha “boring”, chata.
Explica: “Começa às 10h da manhã, termina às 15h. Faz-se uma pausa. Retorna-se às 18h para a performance”.
Sentiu vontade de quebrar essa maneira de trabalhar dentro de um padrão.
Criou então um grupo de teatro amador, com muita música e pouco texto.
Nunca aprendeu a dançar.
Nunca foi a uma escola para aprender.
Gostava de Jazz.
“Eles tocavam, mas não olhavam para mim.”
Então, passou a ignorar o que esses músicos tocavam e passou a improvisar.
Quando o fazia, sentia que havia momentos especiais nessa improvisação.
Ele queria ir mais fundo.
Conheceu Kazuo Ohno e fez com ele um workshop.
Ele já tinha visto Hijikata dançar.
Achou muito agressivo, estranho. Sentiu dor de estômago. Estranhas sensações.
Kazuo convidou Tadashi para acompanhá-lo numa entrevista em Viena, porque ele falava alemão e inglês, além de japonês.
Kazuo estava cozinhando e ofereceu comida a Tadashi.
Quando o jornalista chegou, Kazuo falou o tempo todo sobre insetos, sua mãe, suas histórias.
O jornalista então perguntou o que Tadashi achava do Butoh.
Resposta: “Estrelas/Sol/Lua/Homem/Mulher.
Estrelas se chocam, surgem outras estrelas.
Homens e Mulheres se unem, criam outras gerações.
Ciclos de chuva que param e começam em outro lugar.
Chuva dentro é mandala….”
“Mas o que é Butoh?”
Tadashi: “Você aprende alguma coisa, recebe algo.
Você não passa exatamente o que aprendeu, o que recebeu, mas o que você ‘keep inside’ [o que ficou em você]…
A dança Butoh depende de cada um.
Eu ainda aprendo o que é esta dança.
Eu danço do meu jeito.
Ninguém pode dizer que sua dança não é boa.
Sua dança é sua vida.
Isto é Butoh!
Devemos usar cada dedo, cada parte do nosso corpo para dançar!”
Como Renée, pensei… de mundos, épocas e vidas diferentes, e a mesma opinião sobre a dança, sobre o que importa, que é o que fica dentro de você, o que você vive por dentro, sua emoção, suas memórias.
Sim, minha velha amiga: a memória gruda na pele!
E fomos então dançar essas memórias, essas lembranças.
Pisar sobre nossos mortos e sobre o nosso passado, como Tadashi gosta sempre de sugerir.
Foi mais uma experiência encantadora que vivi no meu corpo pelo jeito Tadashi.
Entediante?
Não! Ainda sinto correr por baixo da minha pele as sensações que experienciei nesse nosso encontro.
Último?
Não!
Esperando pelo próximo, meu querido amigo, que o tempo vai trazer, para outra vez podermos conversar bem de perto com nossos corpos, nessa linguagem já comum a eles.
Até breve, Tadashi!
Tadashi Endo é bailarino butoh, coreógrafo, diretor do “MAMU – Butoh Center” em Göttingen, Alemanha. Reúne em seu fazer artístico a sabedoria das tradições da dança e do teatro, Ocidental e Oriental, construindo um trabalho único e extremamente pessoal. A dança deTadashi Endo expressa a tensão entre yin e yang, masculino e feminino, e o movimento eterno entre ambos. A base de sua dança é o Butoh-Ma – o estar entre. Através de um mínimo de movimento ele alcança o máximo de tensões, sensações e emoções, e dessa forma seu trabalho consegue ser uma síntese entre teatro, performance, improvisação e dança. Tadashi se apresentou no Sesc Santana, em 21 e 22 de fevereiro de 2015, com o espetáculo “Fukushima Mon Amour”.
Tadashi e seu amor transformado em ação no espetáculo “Fukushima Mon Amour”:
“Os japoneses sempre conviveram com os desastres naturais, como terremotos, tufões e tsunamis.
Eles têm respeito pelas forças da natureza e podem lidar com isso.
Porém, não estão prontos para lidar com os desastres provocados pelo homem, como o ataque do fim da Segunda Guerra Mundial e o acidente atômico de Fukushima.
Respeito e aceitação para os seres humanos, animais e natureza estão desaparecendo do Japão e de todo o nosso mundo.
Só o amor à natureza e aos seres humanos pode ajudar em nossa busca pela felicidade.
Vamos salvar a nossa terra maravilhosa!”