Teca e o Butoh – Yoshito Ohno

Teca e Yoshito

Impressões de Teca Marchetto sobre oficina realizada com Yoshito Ohno (14 e 15 de julho de 2015 – Sesc Consolação)

Primeira parte

Outono: segunda obra com Hijikata. Kazuo também participou – queria falar sobre a beleza das flores, sobre quem dançava a beleza das flores –, passou a dizer: eu sou uma flor. Vestiu-se como uma mulher e seguia dizendo: eu sou uma flor. Depois dessa apresentação dos 3 juntos, ninguém quis dançar com eles, despediram-se dela e criaram um nome para esta dança: Butoh. As pessoas que assistiram a essa dança disseram que a dança era alguma coisa muito leve e tinha se transformado em algo muito pesado.

Kazuo sempre dizia que o palco era o ventre da mãe. Então, o Butoh é uma dança de dentro do ventre. Kazuo participou da guerra por nove anos e vivenciou a morte muitas vezes. Então ele se considerou uma pessoa morta. Pintou-se de branco como fazem com os mortos no Japão. Tatsumi Hijikata morreu em Kioto, uma região muito fria e pobre. Seus movimentos sem músculos tensos. Ele também se pintava de branco por causa da morte, da ausência de músculos. Quem assistia dizia parecer uma dança de osso. Assim surge a tradição do bebê, que também é branco, da ausência de músculos, da morte, tão presente, da fome, do frio. As pessoas, no Butoh, também aprendem dança clássica, pantomima e dança moderna.

O que Yoshito quer trabalhar hoje é o tema: o que muda é a existência, a essência não muda nunca.

O que são essas coisas que não mudam? Encontro com o espaço de todas as formas, inclusive o espaço distante. Quando você saúda o espaço, demonstra seu prazer e felicidade em dançar o espaço, neste encontro o espaço dança com você. Kazuo se emocionava a cada vez que entrava no seu espaço (estúdio). Cada pessoa é uma obra. Cada pessoa traz sua história. Ele sente isso mais ainda no Brasil, olhando as pessoas. Ele já subiu no palco e ficou olhando a plateia por 20 minutos, aí fez uma cara expressiva de boca aberta e acabou o espetáculo. Sempre que ele pisa num palco pela primeira vez, se estende até o teto (energia interminável). Até as paredes distantes, atravessando-as sem tocá-las. Colocamos sentimento neste ato, energia. Temos dentro de nós o pianíssimo, o fortíssimo. A música nos faz lembrar essas sensações que temos dentro de nós. Somos um ponto no mundo, um ponto no universo. Estamos preocupados com o que acontece no mundo, com nossos irmãos e com outros pontos do mundo.

O olhar é muito importante (mostrou uma paisagem exposta há 150 anos, uma paisagem vista pelo olhar de um pássaro). Nosso olhar deve saber ir longe. Os insetos olham somente de perto. Há diferentes “distâncias” no olhar que devem ser exploradas. Temos também que olhar a 5/6 metros. O olhar é importante na dança. O olhar que olha para dentro de si mesmo. Você vai criando e construindo durante o dia a dia, aí o colocamos no palco. O olhar no palco é muito importante. Vamos experienciar esses diferentes olhares: dos insetos, dos pássaros, para dentro. Tudo muda com o trabalho dos olhos e do olhar. Quando você olha com os olhos de um pássaro, o que você vê? Tristeza? Felicidade? Alguém muito bravo? O mundo muda aos seus olhos e ao seu redor. Vamos olhar e identificar o que estamos vendo com esses olhos. Parem quando quiserem para observar as outras pessoas olharem!

Agora é o encontro com o corpo. Já nos encontramos com o espaço. O corpo tem todas as coisas, tem todas as cores. Yoshito distribui pedaços de seda pura in natura, apenas a “fiada” da seda, de cor natural branca. Você não consegue romper o fio: “você é forte!”. Meu corpo reflete essa força. Yoshito separa o fio, o fio cede, desfia, fica macio. O toque do fio também é leve, macio. Meu corpo se modela com o fio da seda. Kazuo era bebê, adulto, velho, forte, doce. A música também deve se transformar. Qualquer pessoa tem dentro de si uma criança. Antony (o músico) está encontrando essa criança e fazendo música. As pessoas vão se transformando a partir dessa dança. Importante usar a força e a suavidade na sua dança (como o Antony faz com sua música). Yoshito dividiu os participantes em dois grupos sempre que possível, para olharmos o outro. Depois também nos deixou juntos. Buscar experimentar e não dançar. Explorar a matéria da seda com o corpo e com todos os sentidos.

Você expressa a sua própria tristeza, a sua fúria não é suficiente. É preciso expressar a tristeza do mundo, a fúria do mundo!

Segunda parte

Espalhou rosas pelo palco. Em algumas peças japonesas caem pétalas de rosa. Eram espalhadas, caíam do teto, caíam do céu. Kazuo entrava como quem sai do céu. O corpo é uma coisa ilusória que é criada. Não é algo que existe. Dizer que as flores são lindas é uma coisa cotidiana. O corpo cotidiano (shintai) que olha uma flor e diz como ela é bela. Quando a flor olha você e você entra no palco como se ela estivesse assistindo a você, já não é mais algo comum. As flores crescem em direção ao sol e seus pés em direção à escuridão. Você pode caminhar com seus pés indo em direção à escuridão. Meu corpo tem luz e escuridão. Dessa forma e com essas informações que vêm da natureza você vai construindo seu corpo. Seguindo a linha vertical do cabo da flor, coloca o hino americano, depois uma música de reza irlandesa. Caminhada com a rosa artificial na mão. Olhos na cabeça. Olhos nos pés. Topo da cabeça olha o sol. Os pés devem rezar. Corpo voltado para o sol e para a escuridão.

Quatro filas – caminhando com a rosa nas mãos. Ele disse: estamos na Croácia, em guerra, e a música é de Bach. As pessoas em guerra terão coragem de continuar atirando? Essa caminhada propõe a paz. Eu devo caminhar construindo meu corpo. Atenção especial para as costas agora. Depois: vamos caminhar em duas filas. Flores brotando em meio a uma guerra.

A caminhada é a própria vida. A alma vai à frente e os pés vão atrás! Eu sinto desejo de ir para um lado e aí meus pés me levam até lá. No palco, o sentimento estar à frente do caminhar é muito importante. Por exemplo: a flor da tristeza está caminhando. Ela está chorando. Ela vai à frente e minha alma vai indo à frente também. Os pés não devem chamar tanta atenção. Quando a guerra acabou, Yoshito era uma criança, como o compositor polonês da música ao fundo que foi a Auschwitz (“mamãe não chore por mim”, estava escrito numa parede). Ele entrou e escreveu uma sinfonia para a tristeza.

Vamos fazer a caminhada da tristeza com a flor na mão.

O palco é uma ficção, algo construído. Mas está e pode ficar muito próximo do mundo real. Um fotógrafo que registrou guerras na África com crianças escondidas em cavernas – que tinham pais lutando na guerra – veio fotografar Yoshito no seu estúdio, no Japão. Vamos caminhar por entre as crianças dessa caverna, mostrando a flor da tristeza e olhando para uma delas. Eu caminho atrás da flor da tristeza. Na guerra sempre se pensa nas pessoas que morreram. No Japão, o tsunami matou pessoas, destruiu cidades, mas matou flores também. As flores vão fazer uma procissão no velório das flores. As flores vão caminhar pelos seus companheiros que morreram. Yoshito lembra: a alma vai à frente com a flor.

Entre a tristeza e a alegria, os japoneses preferem a tristeza. Adoram peças e histórias tristes, que fazem chorar. Não são muito bons em fazer rir ou comemorar a alegria. Pagam para chorar. No Ocidente, preferem a alegria.

As rosas têm raízes muito fortes e elas crescem em direção ao sol. Ele quer ver a delicadeza que sobe e a força da raiz na terra (queda x suspensão).

Música: “Deep River”

O rio é como a vida: o rio vai muito fundo e a vida também. Sua própria vida corre por esse rio. Cada um vai mostrar sua vida para a plateia, suas alegrias, tristezas, ritmos, raízes. Vamos dançar o rio. Cultivar a força que não se esvai. No Ocidente as pessoas ficam muito sentadas e têm seus membros inferiores muito fracos. Prestar atenção no movimento de descida e de flexão das pernas. É necessária muita atenção com a parte de baixo.

Sinto que as pessoas querem esconder suas fraquezas e suas emoções mais que demonstrá-las.

Sua obra “Flores e Pássaros” representa a gentileza dentro de si mesmo. Quando você envelhece, você começa a ficar bravo e irritadiço. Ele quer manter sua gentileza e esse sentimento de docilidade. Ele então pratica esse sentimento segurando um lencinho. É preciso cultivar esse sentimento durante o dia a dia, o cotidiano. Quando você fica bravo, você parece um passarinho, irritadiço, bicando.

O espaço entre as pernas e entre os passos é maior, e vai aumentando conforme o tempo vai passando e as pessoas envelhecendo.

O lencinho de papel representa a gentileza. Vamos dançar essa delicadeza com uma folha de papel entre as mãos. Dançamos Maria Callas e ela surge dentre nossas mãos e vai se tornando cada vez mais Maria Callas.

Kazuo usava as músicas de Callas porque ela tinha sempre uma tristeza muito grande. Ela teve que ir aos EUA para estudar, pois na Itália achavam que ela não tinha voz para cantar ópera. Callas conseguia colocar essa tristeza dentro da sua música, assim como sua felicidade em cantar.

Yoshito sempre exigia a todos que participassem de suas aulas.