Instalação Funarte – Sala Renée Gumiel

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“Vie et Mort

Mort et Vie…”

“Gostaria de assistir aos ensaios, Madame…”

“Non, Teca! Nunca perrrmito que assistam aos meus ensaios!”

Sempre essa resposta quando eu pedia a Renée para assistir aos ensaios de “Cinzas”, texto inédito de Samuel Beckett, que ela e Aury Porto estavam preparando para levar ao palco do Sesc Pinheiros.

Resolvi então transgredir.

E, em surdina, entrei na sala de ensaio. Dei vazão ao meu desejo de registrar as cenas e, mesmo no escuro, desenhei. E gostei!

Mostrei para Renée, e ela também gostou.

Elogiou e me autorizou a seguir com esse registro investigativo durante os espetáculos, desde que não fizesse barulho com as folhas para não desconcentrar nem a Aury nem a ela.

Comprei todos os ingressos dos espetáculos a que assisti.

Minha relação com Renée foi sempre assim: tinha que realmente querer, nada vinha de graça, nunca. Estar com ela, mesmo nas menores ações, era quase um ato de fé. Você tinha que provar o tempo todo que, para ela, valeria a pena gastar o mínimo do seu tempo com você, ou experimentando o que você sugerisse ou desse a ela.

Madame Gumiel sabia se dar valor.

Foi assim que dei início a este trabalho.

O texto e a atuação de Aury, ele movendo os dedos dos pés, tão vivo e tão morto no seu discurso. Sempre na penumbra. Traje cinza e marinho. Palavras tão vivas sobre sua falta de vida para viver a própria vida.

E, de repente, surge Renée: vestido branco (um Chanel, bastante usado em espetáculos), a cara e o corpo dela. Tranchã! Foco de luz sobre ela. Que susto! Causou um frisson na plateia. O palco no escuro, paredes e piso negros. Esquelética, peso abaixo do basal. Aquela figura fêmea, viva, trazia a energia que brilha dos ossos, e contracenou com a Vida. Essa personagem morta e tão viva!

Dizeres claros sobre o brilho que a vida oferece, contrapondo-se à falta de vida do marido vivo.

Cenário precioso e clean de Beto Maineiri.

Foi no verão de 2006. Um calor tropical.

Renée faleceu nesse mesmo ano, no dia 10 de setembro.

Foram 10 dias de UTI.

Visitei-a todos os dias, como responsável por ela e por sua internação, acompanhei cada momento de seu desfalecer para a vida.

Vi Renée partir aos poucos.

Esse sofrimento, resolvi que tinha que transformá-lo em algo bem concreto, e, conversando com uma artista plástica italiana, discutimos a possibilidade de dar vida aos desenhos.

Motivada por esse sentimento próprio dos artistas, que não veem empecilhos à frente mas apenas obstáculos a transpor, dias depois procurei pelo Beto Maineiri e pedi sua ajuda para realizar a instalação dos desenhos no espaço vivo e ainda quente deste mundo que Renée havia deixado para trás.

Ele, muito querido, se dispôs a me orientar na escolha dos materiais e me colocar em contato com profissionais que pudessem me ajudar a pôr em pé esse projeto, a lhe dar verticalidade.

E hoje lá está, nas paredes da Funarte, ao lado da sala que leva o nome Renée Gumiel, minha homenagem a ela: uma instalação de 5,60 m de altura por 2 m de largura, que coroou o trabalho do Aury Porto intitulado “Das Cinzas”, em que, em agosto de 2009, ele contracenou com as imagens e a voz de Renée (gravações feitas durante a temporada no Sesc Pinheiros quase 3 anos antes).

Num diálogo entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, segundo o próprio Aury, “fazendo vibrar sua voz, rabiscando seus pensamentos pelas paredes da sala de espetáculo, incorporando seus gestos aos seus movimentos, em ações de vivificação e troca com o que está além”…

Assim, meu querido Aury, eu também espero ter conseguido dar vida após a morte aos gestos e movimentos de Madame, nesse espetáculo, que foi a sua própria vida.

Por ora, chega.

Vou beber uma taça de vinho e fumar um cigarro em homenagem a essa ballerina moderna, choreografa, actrice e professora que foi e sempre será Renée Gumiel.

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